ARQUIVOS DE ADALBERTO PESSOA

26 de junho de 2010

A Quinta Força (Parte 5) – Psicanálise e Gnosticismo

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Psicologia e Gnose:

Do misticismo à Psicanálise e à Psicologia do Inconsciente

 

       Para o historiador de arte Aby Warburg (1866-1929), que desenvolveu, nas investigações realizadas no início deste século, um trabalho interdisciplinar pioneiro, a Alexandria tardo-clássica representava a essência do lado obscuro e supersticioso do homem. Aqui, no antigo centro da cultura universalista grega em solo egípcio, constituída por um amálgama de povos de várias raças, por colonos gregos e romanos, por egípcios e judeus, convergiram nos primeiros séculos da era cristã as linhas de todas as disciplinas individuais que formam o complexo da filosofia hermética: a alquimia, a magia astral e a Cabala (Roob, 1997).

Os sistemas sincretistas complementares, de que se alimentam, formas híbridas de filosofias helenistas e de religiões orientalistas e cultos de mistérios, são conhecidos pelos conceitos de gnose e de neo-platonismo. Essa é base do campo de conhecimento normalmente denominado como Misticismo. (…) Gnose significa conhecimento, que os gnósticos adquirem por várias vias. O conhecimento primordial e fundamental é a informação correta e diz respeito à natureza divina da própria essência do ser, onde a alma surge como centelha de luz divina (Roob, 1997).

A Psicologia segundo a clássica concepção da Grécia antiga tinha como objeto de estudo essa alma humana, de natureza divina. Hoje encontramos definições da Psicologia como o estudo da mente ou da psique, dependendo da posição teórica adotada.  Já vimos que para Skinner, todos esses termos mentalistas retomam a referência a um conceito abstrato, similar à noção de alma (por isso, o mentalismo é rejeitado por uma concepção atual da psicologia como o estudo do comportamento).

Porém Psique foi um termo amplamente utilizado por Freud e Jung, ao longo dos textos que compõem suas complexas teorias; ela é a palavra grega que serve de raiz do termo Psicologia, e significa alma, ou “aquilo que não é do corpo, mas é o componente invisível de uma pessoa” (Halevi, 1990). Nenhum estudo sistemático da psique foi empreendido no mundo ocidental antes dos antigos gregos (o mesmo não pode ser dito sobre os orientais que já estudavam a realidade da alma no psiquismo, milhares de anos antes). Reconhecia-se a presença da alma, mas o que era conhecido estava limitado às escolas esotéricas ou fazia parte do folclore.

Essa fenomenologia poderia ser encontrada na observação das aparições dos mortos, no significado dos sonhos ou nas histórias de aventuras entre os deuses. Fragmentos de conhecimentos chegaram até nós, mas estão na maior parte das vezes, na forma de alegorias que precisam ser interpretadas na linguagem de nossos dias. Aliás, o Espiritismo tem oferecido a sua contribuição substancial para clarificar o conteúdo desse material metafórico, e ir ainda mais além.

Seja como for, naquela época da história, o homem ocidental estava ainda na fase supersticiosa do desenvolvimento, na qual os fenômenos incomuns eram observados, mas não entendidos, de modo que o natural e o sobrenatural se confundiam (Halevi, 1990). Esse fato é bastante sublinhado na literatura específica sobre Parapsicologia (Andrade, 1990; Still, 1986; Aresi, 1917; Inardi, 1977) e Espiritismo (Kardec, 1861). A partir de agora, será realizada uma descrição histórica do desenvolvimento do misticismo até o surgimento da Psicanálise, tomando como base os estudos e pesquisas de Halevi (1990), estudioso da Cabala, e de suas conexões com a Psicologia. Durante essa descrição, aqueles que conhecem bem o Espiritismo, observarão que muitos dos temas abordados por místicos e cabalistas, também são abordados pelos Espíritas modernos, e logicamente, também por psicólogos, justificando esse apanhado histórico.

Segundo Halevi (1990), quando os gregos entraram em contato com as mais antigas e avançadíssimas civilizações do Oriente, em suas campanhas de conquista e de comércio, ocorreu uma alquimia cultural, na qual a inteligência racional dos gregos foi estimulada e fusionada com a experiência filosófica e religiosa da mente oriental. Além dos contatos com as civilizações indiana e persa e a conexão com os egípcios, houve também o encontro entre as culturas helênica e judaica, que deram origem aos fundamentos da Cristandade e do Islã.

O impacto dessa interação estimulou não somente uma abordagem intelectual da cosmologia como também a psicologia, quando os gregos começaram a examinar seus próprios mitos, dando corpo a uma base lógica para a estrutura e a dinâmica do macrocosmo e do microcosmo do Universo e do gênero humano, respectivamente, conceitos comuns em disciplinas como a Cabala, a Astrologia e a Alquimia.

Por volta do sexto século antes da era comum a.C., a ciência grega concluíra que havia uma diferença clara entre sentido e razão, no sentido em que a mente sintetiza o que o corpo percebe. Paralelamente, a noção de temperamentos diferentes foi observada e relacionada aos quatro elementos em uma fórmula do tipo “embaixo tal qual em cima”, tão apreciada pelos filósofos místicos. Lá pelo quinto século a.C., a escola pitagórica  diferenciou a psique do corpo, o qual era visto por eles como uma prisão para a alma enquanto a pessoa estivesse encarnada. Acreditavam que a vida fosse um processo de aprendizagem, durante o qual a alma abria vagarosamente o seu caminho em direção à liberdade interior, purificação e imortalidade, ao transcender o ciclo natural de nascimento, crescimento, decadência e morte.

As escolas que não se ocupavam das questões ligadas ao desenvolvimento focalizavam aspectos mais pragmáticos; aqui temos a grande divisão entre as abordagens platônica e aristotélica, que partilham o estudo da psicologia até os nossos dias (elemento longamente estudado por Jung, em seu livro de 1920 – Tipos Psicológicos). Platão seguiu a linha mística, pois via o Universo emergindo de um reino invisível para uma manifestação, enquanto Aristóteles, o cientista, observava que esses reinos mais sutis eram inerentes ao mundo material. Ele via a psique como a soma ou essência do corpo vivo, enquanto Platão a percebia como um organismo não físico que podia renascer várias vezes após a morte.

Em um nível mais detalhado de observação da mente encarnada, os gregos preocuparam-se com a moralidade da psique em conflito com os vários impulsos do corpo. O processo da vagarosa organização de impulsos primitivos em ações conscientes complexas também foi observado, assim como o princípio do desejo e realização nos sonhos, quando as faculdades superiores estão adormecidas e os apetites mais básicos podiam ser desencadeados sem condenação social. Sabemos que a psicanálise freudiana irá no século XX sistematizar ao conhecimento científico esses postulados, que foram por ela redescobertas.

Isso porque, muitas dessas primeiras conclusões foram incorporadas aos vários sistemas que surgiram da visão helênica da psique. De fato, o efeito do helenismo sobre a visão judaica da psique, e mais tarde sobre as visões cristã e islâmica, foi enorme. Isso ficou mais claro quando a Cabala saiu de sua tradicional reclusão no princípio da Idade Média. A Cabala é um sistema filosófico-religioso que busca compreender Deus, os mistérios do Universo e o destino do homem através do misticismo. Enquanto sistema judaico-cristão guarda muitas relações de similaridade e complementaridade com a visão espiritista moderna, de forma que seu estudo sumário é importante para qualquer um que queira contribuir para a pesquisa de um projeto de Psicologia Espírita.

Observamos, nesse contexto, que na crise entre razão e revelação, a psique foi submetida a profundos estudos, quando vários místicos discutiam abertamente os muitos componentes, funções, problemas e resoluções relacionados à vida interior. Debates sobre a alma nas casas de estudo rabínicas, nas celas monásticas, nas escolas sufistas e entre os cabalistas e os alquimistas gnósticos, bem como entre os mais diferentes pesquisadores esotéricos e místicos (ocidentais e orientais) exploravam cada aspecto e nível, até que o espírito criativo se abatesse e as universidades se tornassem meros centros de repetição e informações baseadas no que fora dito pelos mestres antigos e medievais, situação que só se modificou com a Renascença, quando a psicologia voltou a mover-se, devido ao esforço de pessoas inquisitivas que recomeçaram a estudá-la com uma nova visão.

Por exemplo, o trabalho do anatomista Vesalius, no século XVI, removeu muitas idéias sobre a dependência do corpo pela alma, como sustentavam muitos antigos pensadores; observadores sociais, como Maquiavel, varreram com o ideal acadêmico de que as pessoas eram inerentemente nobres. Estava bastante claro, naqueles tempos politicamente expeditivos, que o lado primitivo de um ser humano podia perfeitamente predominar. Isso levou a uma reformulação da psicologia e das suas implicações, com o estudo do efeito da sociedade sobre os indivíduos (Halevi, 1990).

Por outro lado, estudiosos como Thomas Hobbes tomaram outro caminho, e desenvolveram uma abordagem mecanicista, alinhada com a influência de Galileu, que havia destruído a antiga imagem do mundo e todo o seu mistério com a mecânica celeste. A Idade da Razão, nascida desta perspectiva, foi combatida por algumas escolas platonistas da época, mas até mesmo Newton, um místico de primeira grandeza, se viu obrigado a ocultar o fato de que a maior parte de suas anotações eram sobre questões religiosas. Aparentemente, durante os séculos XVII e XVIII, poucos estudos psicológicos reais foram feitos, embora muito tenha sido feito com o uso da abordagem mecanicista e teórica, o que levou a muitas conclusões baseadas no método empírico. Por outro lado, o extremo racionalismo dessa época produziu suas reações, através de edifícios téoricos complexos como os dos processos magnéticos do mesmerismo, ou o surgimento de algumas novas escolas protestantes no Cristianismo, ou ainda, o protesto dos filósofos românticos, entre outros.

Em uma era obcecada com o estilo requintado e com o aperfeiçoamento do maquinário, a loucura não era entendida, e era tratada do modo mais bárbaro. Foi somente após o surgimento da consciência social que as pessoas pensaram em examinar a psique do indivíduo. Por volta do fim do século XIX, surgiram numerosas escolas de psicologia; algumas tinham um ponto de vista fisiológico, enquanto outras consideravam os aspectos sociológico, funcional e comportamental. Escolas como a gestáltica exploravam os efeitos do meio ambiente sobre a psique, em contraste com os procedimentos analíticos que se envolviam então para devassar as estruturas da mente.

De toda essa ebulição de estudos científicos surgiu Freud, que abriu o Mundo do Inconsciente, com suas poderosas forças que permeiam a consciência, para influenciar as pessoas sem que elas o percebam, causando neuroses, psicoses e comportamentos ocasionalmente irracionais em pessoas consideradas normais. A contribuição de Freud para a psicologia ocidental foi enorme. Ele não somente redescobriu aquilo de que as escolas esotéricas falaram durante séculos como também começou a sistematizar a mente de maneira científica, embora tenha encontrado muita resistência em sua própria área profissional. Jung, seu colega mais jovem, que estivera desenvolvendo sua própria visão de psique, adotou uma postura platônica para a abordagem aristotélica de Freud. Jung notou que, embora a mente tenha seus impulsos primitivos, está também sujeita a uma influência mais profunda, vinda dos níveis mais altos do inconsciente. Desse modo, o ego da psique inferior foi separado do Si-mesmo, que supervisiona o processo de desenvolvimento, tal como descrito em textos e mitos espirituais (Halevi, 1990).

Como existe hoje em dia, no Ocidente, um grande interesse pelo esotérico, isso levou muita gente a reconhecer que a psicologia é um pré-requisito necessário antes de se passar para o estudo do Espírito e do Divino. É aqui que a Psicologia e o Esotérico podem encontrar-se, adaptar-se mutuamente e dar origem a uma alquimia para a nossa época. Antes que isso possa acontecer, porém, temos, que considerar a idéia da revelação como fonte de conhecimento, na chamada epistemologia da intuição (Cabala, Parapsicologia e Psicologia Profunda) e da mediunidade (Espiritismo): se tomarmos, por exemplo, a Cabala como um dos referenciais a serem considerados, veremos que o seu ensinamento tem sido sempre o mesmo ao longo dos séculos. Apenas a forma desse ensinamento mudou com o tempo. O conteúdo da Torá, tal como é tradicionalmente chamada, diz respeito à origem, natureza e propósito do Universo, o lugar do homem em um processo Divino pelo qual Deus contempla Deus no reflexo da Existência. Esse tema é recorrente em toda a Bíblia e em todos os sistemas esotéricos que surgiram daquele círculo de seres humanos que historicamente apreenderam a dimensão transpessoal da realidade. Uma determinada cultura pode encobrir ou obscurecer o ensinamento, mas a presença deste é sentida nos rituais, nas devoções e na metafísica por todos os que buscam um sentido para a vida, e até mesmo por aqueles que têm somente uma apreciação supersticiosa do que se encontra sob a superfície do mundo físico. Os gnósticos originais, ou “os que sabem”, foram alguns dos que tiveram acesso direto a um conhecimento “superior”. Tal acesso pode ter sido alcançado mediante ações corretamente executadas, oração devota ou contemplação profunda. Pode também ter sido revelado pela instrução de alguém que sabia, por uma experiência mística pessoal, o que é que estava além da “mente comum”, e compreendia os seus níveis superiores e o seu funcionamento. Infelizmente, como tem sido notado pelos místicos, há sempre o problema de descrever o indescritível. Muitos, portanto, foram obrigados a reduzir suas percepções a termos corriqueiros, de modo a poderem passar adiante algo dessas dimensões mais refinadas e sutis.

Temos assim, que entre os pólos da simples consciência física e da total realização está um amplo espectro de experiência humana. Tal espectro é dividido, por toda Tradição esotérica em corpo, alma, espírito e Divino. A psicologia, segundo essa visão, ocupa-se primariamente do mundo da mente, que tem acesso ao corpo, contém a alma, é penetrada pelo espírito e tocada pelo Divino. Quando o estudo da psicologia é colocado nos marcos do esquema da Cabala, é levado em consideração a origem do ser humano e da sua composição física, espiritual e Divina. Sem restringir a psique a um único caminho que conduz ao processo de aprendizagem, antes a Cabala, a aborda como um microcosmo dentro do Universo, onde é possível encontrar, em suas partes mais profundas, áreas inconscientes que possuem lembranças não apenas desta vida, mas de toda a humanidade, permitindo ao indivíduo um relacionamento melhor com as constantes mudanças de valores que ocorrem não somente no mundo exterior, mas também nos processos corporais e psicológicos.

Temas como a noção de reencarnação, carma e vidas passadas, e a influência dessas existências anteriores sobre a psique, passam a ser importantes nesse contexto. Os cabalistas acreditam que todo ser humano, antes mesmo de nascer, possui uma linha seqüencial de desenvolvimento físico e psicológico pré-determinada, em linhas gerais, já que modulada e flexibilizada pelo livre-arbítrio, e dentro da qual cada um tem tarefas espirituais a cumprir. A este processo dá-se o nome de Destino ou Sina, que deve ser vivenciado para que o indivíduo possa alcançar a perfeição do Self. O simbolismo da Árvore da Vida é, tomado assim, como base para uma viagem dentro do Eu, em que especial atenção é oferecida à psique e à grande jornada do destino, que cada um de nós empreende ao descer à encarnação, e ao voltar depois ao lugar de onde todos viemos.

Ao fundir disciplinas como psicologia, cabala e espiritismo, devemos examinar a história da nossa atual situação a cada nível, extraindo elementos mais importantes de cada tema e inter-relacionando as suas relevâncias, de maneira a compor uma síntese que proporcione uma nova visão de ambos, considerando-se diversas escolas de pensamento, não somente para obter um panorama mais amplo como também para cobrir todos os estágios e níveis do desenvolvimento. Esse trabalho que coloca o cabalista em contato com o psicólogo, descreve a Epistemologia da Intuição, que é igualmente compartilhada com a Epistemologia da Mediunidade, que fundamenta uma Psicologia de Orientação Espírita – Psicologia e Psicanálise, Espiritismo e Gnose (Cabala e Alquimia), muito possuem a contribuir um com o outro, temos que concordar. No futuro, isso poderá justificar todo um trabalho de pesquisa a ser publicado e divulgado ao público. Por enquanto, porém, tal ultrapassaria dos objetivos do material aqui tratado.

  • Sobre as conclusões da contribuição Psicanalítica

 

Como observamos a Psicanálise redescobre em uma linguagem científica, muito do que os gnósticos já conheciam sobre a Alma Humana e o Inconsciente. Com isso, a Psicanálise fornece uma consistente teoria sobre a personalidade humana, ao discriminar os elementos psíquicos relativamente estáveis de nossa individualidade, e seus mecanismos psicodinâmicos.

Assim, com o conceito de personalidade e a descrição do aparelho psíquico, Freud se tornou o primeiro autor a abrir caminho a um estudo profundo da Alma Humana, com a fundação da Psicanálise e a popularização da Psicologia Moderna. Jung veio logo em seguida, aprofundando e ampliando a contribuição freudiana. Nomes como Alfred Adler e Wilhelm Reich também fazem parte desse percurso e, não devem ser esquecidos nesse apanhado histórico. Um detalhamento de suas contribuições, porém, excederia os limites dessa atual pesquisa.

Por fim, procurou-se evidenciar a influência do helenismo e do judaísmo (especialmente, da Cabala) na formação do pensamento freudiano. Freud não assumiu expressamente todas as implicações dessa influência, apesar de ter aberto um grande caminho, muito bem aproveitado, posteriormente, por Jung…

(continua em Parte 6…)

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